Definição de metas nas terapias de crianças neuroatípicas

Texto originalmente publicado em 2019


Sendo um transtorno do desenvolvimento por definição, o acompanhamento dos pacientes por meio de reavaliações periódicas, nos permite avaliar a aquisição de habilidades de cada um, ao longo do tempo. E uma questão tem me preocupado em função da heterogeneidade do espectro: a individualização das intervenções terapêuticas.

Definir metas é essencial para desenvolver o trabalho com crianças autistas.

Temos que saber onde queremos chegar para planejar a abordagem terapêutica. Só que, para estabelecer as tais metas, primeiro temos que conhecer o perfil daquela criança com quem vamos trabalhar, suas características, suas dificuldades, seus pontos fortes. Temos que respeitar as necessidades da criança. Não é receita de bolo. Não dá pra colocar as mesmas metas para todos.

E tenho visto crianças autistas que passam muitas horas da semana em terapias mecanizadas, voltadas a propósitos genéricos, nem sempre relevantes para elas. Principalmente à medida que crescem, tenho visto que as metas se limitam cada vez mais à aquisição de habilidades escolares. Não estou dizendo que o avanço pedagógico não seja importante – claro que é. Mas trabalhar exaustivamente somente para que as crianças acompanhem o mesmo conteúdo que seus colegas neurotípicos na escola – enquanto deixamos de lado o desenvolvimento da comunicação, das habilidades interpessoais como um todo, da autonomia e das questões emocionais – me parece um grande equívoco.

Será que “acompanhar a apostila” é mesmo tão mais importante para a vida da criança do que o autoconhecimento, do que a desenvoltura de entrar numa padaria e comprar o que quiser ou de se expressar com clareza num grupo?

Deixo a reflexão para pais e terapeutas.

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no linkedin
LinkedIn

CRM 78.619/SP

Dra. Raquel Del Monde

É médica formada pela USP – RP (1993), com residência em Pediatria pela Unicamp (1996) e Treinamento em Psiquiatria da Infância e Adolescência também pela Unicamp (2013). Viu sua carreira mudar quando seu filho mais velho recebeu o diagnóstico de autismo em 2006. Desde então, vem se dedicando exclusivamente ao atendimento de pessoas neurodiversas, ao aprofundamento nas questões da neurodiversidade, e tornou-se uma ativista da luta anti-capacitista.