Desafios nos cuidados de saúde para neurodivergentes

Você já passou repelente hoje?

Estamos em tempos de dengue e passar repelente no corpo é uma das ações que podemos tomar, a nível individual, para nos proteger. Mas eu poderia trocar a pergunta para “Você passou protetor solar hoje?” ou “Você foi ao dentista no último ano?” ou “Você fez os exames de sangue que seu médico pediu?” e tantas outras. Porque o assunto desta conversa é sobre como pessoas neurodivergentes lidam com cuidados rotineiros de saúde. Não com situações de urgência e emergência, mas com aqueles cuidados básicos, periódicos, que são mais relacionados à prevenção e/ou detecção precoce de problemas de saúde. Algumas vezes, a rigidez cognitiva que observamos nos autistas se reflete na maneira sistemática em que incorporam esses cuidados ao dia a dia. A pandemia foi um período em que pudemos notar o rigor de muitos com o uso de máscaras, a lavagem das mãos e o distanciamento social, mas, mesmo em épocas mais tranquilas, pessoas com esse perfil mais rígido costumam realizar esses cuidados com precisão e constância invejáveis. São do tipo que mantém anotações caprichosas, que seguem direitinho os protocolos e orientações, que leem e fazem pesquisas por conta própria. Claro que, vez ou outra, alguns pendem para um lado mais extremo, quase obsessivo e podem engajar em dietas e rotinas radicais, que chegam até a ser arriscadas.

Do outro lado, temos pessoas com TDAH e autistas com disfunção executiva. Os que compram o repelente e o protetor solar e deixam numa gaveta onde nunca mais serão tocados. Os que só lembram dos exames solicitados no dia do retorno em que deveriam ser mostrados. Os que deixam vencer as receitas de medicamentos controlados na maior parte das vezes. Os que não conseguem planejar idas ao dentista ou ao ginecologista de rotina (geralmente precisam de uma motivação como um dente inflamado ou uma infecção de urina).

Mas não só os diferentes perfis cognitivos estão envolvidos nesses cuidados de rotina. Para muitos neurodivergentes, as dificuldades na comunicação social podem ser um obstáculo para consultas e atendimentos diversos, desde os contatos para marcar até a própria situação da conversa com o profissional. Aspectos sensoriais, como intolerâncias alimentares, a texturas, ao calor, podem ser responsáveis pela resistência a adotar hábitos saudáveis em relação à alimentação, uso de produtos ou atividade física, por exemplo.

Um grande problema é que muitos dos benefícios trazidos por esses cuidados são invisíveis (da mesma forma que as neurodivergências) ou demoram décadas para aparecer. Você toma a vacina e NÃO pega a doença, você passa protetor solar todos os dias e NÃO desenvolve câncer de pele, você cuida da saúde dos dentes e NÃO tem cáries. Ou seja: nenhuma vantagem que seu eu do presente julga suficiente para encarar os obstáculos. Mas seu eu do futuro terá que arcar com as consequências.

O reconhecimento das dificuldades e a parceria, sensível e sem julgamentos, de todos os profissionais que atuam com pessoas neurodivergentes é fundamental para mudar essas trajetórias.

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CRM 78.619/SP

Dra. Raquel Del Monde

É médica formada pela USP – RP (1993), com residência em Pediatria pela Unicamp (1996) e Treinamento em Psiquiatria da Infância e Adolescência também pela Unicamp (2013). Viu sua carreira mudar quando seu filho mais velho recebeu o diagnóstico de autismo em 2006. Desde então, vem se dedicando exclusivamente ao atendimento de pessoas neurodiversas, ao aprofundamento nas questões da neurodiversidade, e tornou-se uma ativista da luta anti-capacitista.