Entendimento literal

“E aí? Como vão as coisas?” – perguntei ao entrar no consultório com a adolescente.

Uma expressão de confusão e contrariedade surgiu imediatamente em seu rosto.

“Você vai precisar fazer perguntas bem mais específicas que isso” – respondeu ela. “Senão não sei direito o que te contar e vou falar por horas”.

O entendimento literal é uma característica bem conhecida dentro do espectro do autismo. Algumas vezes gera situações engraçadas, rende boas risadas.

Gírias e expressões idiomáticas estão tão presentes na nossa comunicação que a gente nem lembra de onde surgiram. Elas aparecem no meio das conversas, sem explicações, e a maior parte das pessoas deduz seu significado a partir do contexto. Se interpretadas ao pé da letra, não fazem sentido algum (alguém explique “cão chupando manga”!). Mas o entendimento literal não ocasiona apenas dificuldade para entender figuras de linguagem. Ele pode prejudicar seriamente o engajamento de uma pessoa em situações sociais, afetar seu comportamento e desempenho escolar e mesmo profissional. Alguns adolescentes chegam a evitar o contato com seus pares por não se sentir capazes de acompanhar uma conversa como os outros. Não entendem muitas piadas, insinuações, frases irônicas. Eles tem medo de passar por bobos, de fazer papel de palhaço, de reagir de forma inadequada, de não saber as “respostas certas”.

Perguntas sociais, aquelas que algumas vezes fazemos por educação (“Como foi de viagem?”, “E sua avó, melhorou da coluna?”) podem levar a explicações longas e detalhadas, fugindo completamente ao propósito do diálogo. Seguir instruções vagas pode ser um desastre. “Espera ali um pouquinho”, “Pega alguma coisa na padaria no caminho de volta”, “Inventa uma desculpa pra sua tia”.  E a resistência a cumprir o que foi solicitado pode ser levado como preguiça, má vontade, oposição, enfrentamento. Na escola, o aproveitamento pode ser prejudicado por problemas na interpretação de textos (que exige abstração, capacidade de fazer inferências e ler nas entrelinhas) e na compreensão de enunciados de tarefas e provas. 

Não raramente, autistas que apresentam entendimento literal são subestimados em sua capacidade intelectual. Sua dificuldade em compreender o contexto da conversa pode ser interpretada como falta de inteligência. Isso acontece até com aqueles que são superdotados. Eles também ficam mais vulneráveis a pegadinhas e abusos, pela ausência de malícia. Como consequência, o nível de ansiedade pode ser muito elevado em função da insegurança que sentem em determinados ambientes. 

É muito importante que os terapeutas levem a sério essa dificuldade e trabalhem com ela.

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CRM 78.619/SP

Dra. Raquel Del Monde

É médica formada pela USP – RP (1993), com residência em Pediatria pela Unicamp (1996) e Treinamento em Psiquiatria da Infância e Adolescência também pela Unicamp (2013). Viu sua carreira mudar quando seu filho mais velho recebeu o diagnóstico de autismo em 2006. Desde então, vem se dedicando exclusivamente ao atendimento de pessoas neurodiversas, ao aprofundamento nas questões da neurodiversidade, e tornou-se uma ativista da luta anti-capacitista.

Dra. Raquel Del Monde | CRM 78.619/SP