Era tão bom quando você só falava de autismo

Eu sempre vou lembrar em detalhes da primeira vez que senti na pele a experiência do preconceito, no início da vida escolar do meu filho.

Memórias afetivas são poderosas.

Sabe aquela coisa do tipo “a primeira vez a gente nunca esquece?”.

Eu sempre vou lembrar em detalhes da primeira vez que senti na pele a experiência do preconceito, no início da vida escolar do meu filho. Vou resumi-la com uma das frases que ouvi na época: “Ele precisa ir pra uma escola pra gente como ele”.

A frase é emblemática e expressa o sentimento por trás de todos os preconceitos.

“Gente como ele” em oposição direta a “gente como nós”. A diferença que desqualifica, invalida, inferioriza e estigmatiza.

É essa a origem do racismo, da homofobia, da misoginia, da xenofobia, do capacitismo…

Estar fora da situações-alvo de preconceito traz uma falsa sensação de segurança e conforto. O indivíduo pode até manifestar simpatia em relação às causas das minorias, mas não sente que tem alguma coisa a ver com isso – isso quando não se sente ameaçado por elas, o que acontece com certa frequência. Por isso, histórias de superação (o imigrante hostilizado que venceu na vida, o negro que virou diretor da empresa, o autista que se formou em primeiro lugar na universidade renomada) são ilusórias e traiçoeiras, porque vendem a ideia de que não há necessidade de mudar a estrutura, que basta o esforço da pessoa para derrubar barreiras – quando sabemos de fato que não há superação sem envolvimento coletivo.

Tenho aprendido muito nos últimos anos, com o trabalho diário com pessoas neurodiversas e com o ativismo do autismo e todos os seres humanos incríveis que conheci por meio dele. E gostaria de compartilhar alguns desses aprendizados.

Não existe ativismo seletivo

A partir do momento que você enxerga a intolerância em relação às minorias, a discriminação, a desigualdade de oportunidades, as falácias do sistema, não há como validar seletivamente as lutas de apenas algumas delas. Se você não consegue enxergar que a luta pelos direitos do seu filho autista não é mais importante que a luta contra o racismo ou a homofobia, você continua naquele lugar que busca uma falsa sensação de segurança e conforto que produz o discurso do “gente como ele – gente como nós”. Um lugar tão frágil que não resiste às reviravoltas da vida.

Não existe ativismo isento

Vira e mexe, vemos ataques a ativistas do autismo que se posicionam em relação a temas polêmicos. A frase clássica “Era tão bom quando você só falava de autismo!”. Bom, talvez as pessoas que estejam dispostas a ouvir “apenas de autismo” devam se limitar aos textos teóricos. Porque, na vida real, o autismo (e o TDAH e todas as condições de saúde mental, de desenvolvimento e aprendizagem) precisam ser discutidos em termos de acesso a diagnóstico e suporte terapêutico, em termos de inclusão educacional, profissional e social. Não dá pra falar de nada disso ignorando as barreiras que enfrentamos e a necessidade de políticas públicas alinhadas às mudanças que precisamos. Não dá pra manter compromisso com a ciência e a diversidade ignorando o obscurantismo e o preconceito.

Este nosso espaço não é seletivo ou isento.

Eu continuarei a dispor da minha vivência, liberdade e independência para trazer informações confiáveis e discussões de assuntos do cotidiano das pessoas neurodiversas – apoiando as lutas das demais minorias e mantendo uma visão crítica da nossa realidade.

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CRM 78.619/SP

Dra. Raquel Del Monde

É médica formada pela USP – RP (1993), com residência em Pediatria pela Unicamp (1996) e Treinamento em Psiquiatria da Infância e Adolescência também pela Unicamp (2013). Viu sua carreira mudar quando seu filho mais velho recebeu o diagnóstico de autismo em 2006. Desde então, vem se dedicando exclusivamente ao atendimento de pessoas neurodiversas, ao aprofundamento nas questões da neurodiversidade, e tornou-se uma ativista da luta anti-capacitista.