Infância feliz e “pseudo-autismo”

Texto produzido em 2021 para o Instituto Lagarta Vira Pupa


Há poucos dias, o post de um pediatra influente sobre “pseudo-autismo” teve grande repercussão.

O texto relatava o caso de um menino que, visto com 1 ano e meio, apresentava sinais que poderiam levantar a suspeita de TEA e que, após orientações do médico para alterar hábitos de saúde ruins, instalados na pandemia, foi visto novamente aos 2 anos e meio, sorridente, falante e feliz. 

Acho muito importante falarmos sobre alguns tópicos desse post, pois, inadvertidamente e apesar da boa intenção (de alertar para a importância da boa alimentação e estímulos adequados ao desenvolvimento), ele estabelece associações equivocadas e dissemina falsas conclusões para um público grande e leigo.

Na descrição inicial, temos um menino com pouca atenção compartilhada (não atendia a seu nome e nem olhava nos olhos, não se interessava pelas brincadeiras) e sinais de alteração do processamento sensorial (andava na ponta dos pés e estava mais seletivo na alimentação).

Portanto, sim, exibia sinais que mereciam atenção.

A investigação da rotina mostrava o confinamento da pandemia, excesso de horas frente à TV, uso de alimentos processados. Não entrava em detalhes sobre aspectos extremamente importantes. Sobre o conteúdo a que foi exposto, por exemplo. Existem programas infantis muito interessantes e educativos. Além disso, faz parte da avaliação saber do comportamento da criança frente àquele estímulo: se acompanha uma história simples, se demonstra compreensão da linguagem e exibe respostas a certas cenas de desenhos, se repete palavras, se imita dancinhas, se insiste em repetir várias vezes apenas parte do programa. São informações essenciais para avaliar linguagem receptiva, imitação, comportamento repetitivo. Será que os pais não apresentavam estímulos para a criança, mesmo estando em home office? Não conversavam com ela na hora do banho, das refeições, de trocar a fralda? Aliás, uma criança de 1 ano e meio que aceita ficar passivamente largada em frente a uma TV por 5-6 horas já me chamaria muito a atenção. Será que a alimentação só continha os ultraprocessados? Nenhuma fruta? Se havia recusa a legumes, significa que eram oferecidos. Também não sabemos se houve aleitamento materno, se usava fórmula (afinal, leite ainda é um alimento importante nessa idade).

O texto menciona brevemente um episódio muito importante sobre o qual não temos nenhuma informação: uma fratura do fêmur que precisou de imobilização total por 8 semanas. Quais teriam sido as consequências disso pra essa criança?

O pediatra pediu uma audiometria que foi normal. Imagino que nem tenha sido audiometria e sim o BERA pela faixa etária, mas, mesmo assim, praticamente não tem relevância no caso. Um neurologista consultado encaminhou para estimulação precoce com fono e TO, que seria a conduta correta no caso.

Mas o pediatra optou por dar orientações genéricas para a família, sobre atitudes benéficas a toda criança (melhorar alimentação, brincar mais, levar a pracinha etc.), mas que não oferecem estímulos específicos – que podem fazer toda a diferença, em muitos casos.

O post termina falando da criança sorridente e falante, aos 2 anos e meio. Acrescenta modestamente que não foi milagre, mas sim a decisão da família de oferecer uma vida melhor para seu filho, uma infância feliz, orientada pelo profissional.

Todos nós gostamos de finais felizes.

E queremos acreditar que basta “uma infância feliz” para que todos os sinais de condições do neurodesenvolvimento desapareçam.

Mas o fato é que o texto traz informações errôneas. O menino que saiu do consultório falante e sorridente ainda pode ser autista. É uma pena ver propagada uma visão limitada e estereotipada do espectro do autismo. É lamentável a utilização do termo pseudo-autismo como título. Reforça a ideia de que o autismo é um diagnóstico da moda ou que o “autismo virtual” é algo que realmente existe. Além disso, desencoraja a busca do tratamento precoce, que é de importância fundamental para tantos casos. Nem todos os autistas se beneficiam apenas dos estímulos naturais do ambiente. 

Por último, o texto e joga lenha na fogueira da culpabilização dos pais de crianças atípicas. Como se já não fossem julgados diariamente pelos atrasos ou comportamentos “impróprios” dos filhos.

O conceito de “faça tudo certo que vai ficar tudo bem” traz implicitamente a visão de que as pais de crianças neurodiversas estão fazendo algo errado.

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Dra. Raquel Del Monde

É médica formada pela USP – RP (1993), com residência em Pediatria pela Unicamp (1996) e Treinamento em Psiquiatria da Infância e Adolescência também pela Unicamp (2013). Viu sua carreira mudar quando seu filho mais velho recebeu o diagnóstico de autismo em 2006. Desde então, vem se dedicando exclusivamente ao atendimento de pessoas neurodiversas, ao aprofundamento nas questões da neurodiversidade, e tornou-se uma ativista da luta anti-capacitista.