Relações abusivas e autismo

Quando se fala em abuso, a associação com abuso sexual logo vem à mente.

Mas abuso é um termo que vai muito além disso: ele se refere a todas as formas de violência física ou psicológica e negligência, que resultem em danos reais ou potenciais à saúde física, mental ou à dignidade do indivíduo. Na maior parte dos casos, ele ocorre dentro de uma relação de confiança e/ou responsabilidade, em que o abusador é um familiar, cuidador, parceiro afetivo ou mesmo um profissional que atende aquela pessoa.

Autistas encontram-se numa posição de muita vulnerabilidade nesse contexto.

É de extrema importância que possamos reconhecer as características dessas relações abusivas e o cenário em que ocorrem.

Características das relações abusivas

Não precisamos descrever aqui o abuso explícito/ óbvio para que seja reconhecido como tal. Mas muitas vezes, a situação abusiva não é aparente e nem compreendida como sendo abusiva.

É quando, por exemplo, o abuso vem na forma de tentativas de educar/ disciplinar desconsiderando as particularidades do autista. Aqui se incluem os castigos físicos ou contenção violenta, a invalidação da sua comunicação (ignorar voluntariamente seu comportamento comunicativo), forçá-lo a estímulos sensoriais que lhe são insuportáveis (comer algo aversivo; permanecer em ambiente com estressores específicos – cheiros, barulhos, luzes; vestir uma roupa com tecido que não tolera), reprimir estereotipias necessárias à sua regulação, fazer ameaças, submeter a tratamentos prejudiciais ou degradantes, humilhar a pessoa, expor suas dificuldades de maneira desrespeitosa.

Relatos sobre relações abusivas chegam com frequência ao consultório

Relatos sobre relações abusivas chegam com frequência ao consultório.

Da escola, sobre professores que conscientemente fazem exigências pra tarefas ou participações para as quais o aluno apresenta extrema dificuldade, que simplesmente ignoram o aluno ou que o expõem a situações vexatórias ou traumáticas. Sobre gestores que toleram e minimizam o bullying dos colegas e negligenciam o atendimento das necessidades do aluno autista.

Dos profissionais envolvidos nas intervenções terapêuticas, pode haver uma rigidez excessiva que transforma a sessão numa espécie de tortura (claro que não estou falando da resistência natural a demandas da terapia ou num momento inicial de adaptação ao profissional, mas sim a atendimentos que perduram sem a sensibilidade e individualização necessárias). Crianças autistas oralizadas ocasionalmente também descrevem que são deixadas repetidamente com um tablet ou brinquedo enquanto o terapeuta fica no celular ou ausente da sala, configurando negligência.

Das relações afetivas, sejam amigos ou parceiros românticos, há situações em que se aproveitam da literalidade e ausência de malícia do autista, para obter vantagens de vários tipos, estabelecer uma relação de controle ou satisfazer necessidades próprias (físicas ou emocionais) sem considerar as consequências para a outra pessoa.

Da própria família, pode haver demandas sistemáticas originadas de expectativas irreais para que o autista se comporte de determinada maneira, com críticas excessivas, invalidação sistemática da sua comunicação, comparações injustas, ameaças, punições, atitudes que comunicam rejeição da pessoa e das suas particularidades.

É importante ressaltar que estamos falando de situações pontuais – sem nenhum tipo de generalização – e que persistem ao longo do tempo, mesmo após confrontação.

Em boa parte dos casos, não é fácil fazer com que as situações descritas acima sejam reconhecidas como abusivas, principalmente quando o abusador enxerga que age dessa maneira “para o bem da pessoa”. Mas precisamos falar cada vez mais disso, apontar o abuso, confrontar a situação. Porque as consequências são devastadoras e prolongadas (quando não permanentes) para as vítimas dessas relações abusivas. A autoestima costuma ser profundamente afetada, com impactos diversos em sua vida: sensação constante de medo, ansiedade, depressão, fobias, problemas de alimentação ou sono, isolamento, agressividade e aumento do risco de automutilação e suicídio.

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CRM 78.619/SP

Dra. Raquel Del Monde

É médica formada pela USP – RP (1993), com residência em Pediatria pela Unicamp (1996) e Treinamento em Psiquiatria da Infância e Adolescência também pela Unicamp (2013). Viu sua carreira mudar quando seu filho mais velho recebeu o diagnóstico de autismo em 2006. Desde então, vem se dedicando exclusivamente ao atendimento de pessoas neurodiversas, ao aprofundamento nas questões da neurodiversidade, e tornou-se uma ativista da luta anti-capacitista.

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