Catatonia no autismo: como reconhecer os sinais

A catatonia é uma síndrome neuropsiquiátrica complexa caracterizada por perturbações do humor, da função motora, da fala e do comportamento. Descrita em 1874, foi classificada como sendo um subtipo de esquizofrenia. Entretanto, nas últimas décadas sabemos que a catatonia está associada a uma ampla gama de condições de saúde orgânica (especialmente relacionadas ao SNC, como encefalites, doenças autoimunes, lesões neurológicas), neuropsiquiátricas (esquizofrenia, autismo, depressão, transtorno bipolar) e ao uso de substâncias (álcool, antipsicóticos, benzodiazepínicos), dentre outras. Por essa razão, nas classificações diagnósticas atuais (DSM 5 e CID 11) podemos encontrar a catatonia em diferentes contextos de saúde.

Quando se fala em catatonia, a imagem que geralmente vem à mente é aquela de imobilidade (postura “congelada”) e de dificuldade para iniciar e cessar movimentos, mas sua apresentação clínica pode ser bem variada, envolvendo diversas alterações comportamentais, sintomas psiquiátricos e mesmo sinais autonômicos. Pode haver flutuação das manifestações, com períodos de melhora e piora, aumentando o desafio no reconhecimento desta condição.

A ocorrência da catatonia no autismo tem sido cada vez mais reconhecida. Estudos mostram prevalência de 12-20%, surgindo principalmente na adolescência e início da vida adulta (pico de ocorrência entre 15 e 19 anos) e com predominância no sexo masculino (70-100%).  Com frequência, sua identificação é dificultada pela sobreposição dos sinais e sintomas entre as duas condições (estereotipias, posturas atípicas e outras alterações motoras; indiferença social e alterações na fala; agitação e comportamento opositor).

O diagnóstico diferencial precisa sempre ser considerado nos casos em que são observadas mudanças em relação ao comportamento habitual da pessoa autista, especialmente em relação aos níveis de atividade motora (tanto diminuída quanto aumentada), aparecimento de comportamentos atípicos e perda ou redução de habilidades previamente adquiridas. Não é incomum que familiares e profissionais atribuam essas mudanças a questões típicas da adolescência ou à depressão, mas precisamos estar atentos pois a catatonia pode levar a um declínio gradual e progressivo de funções.

Com o objetivo de ampliar o reconhecimento da catatonia no TEA, uma revisão sistemática definiu 6 conjuntos de sinais e sintomas que. Embora alguns desses sinais não estejam incluídos entre os critérios diagnósticos descritos nas classificações atuais, eles são importantes para a observação clínica.

  • Alterações da atividade psicomotora (aparecem em 100% dos casos): aumento ou diminuição do nível de atividade motora; sinais motores atípicos como rigidez e imobilidade, ecopraxia (repetição dos movimentos de outra pessoa), necessidade de comando para iniciar movimentos, maneirismos (ações repetidas, como tirar e colocar a roupa), caretas, tiques, mutismo. Pode haver agitação extrema, impulsividade e movimentos auto lesivos.
  • Perturbações da fala (42% dos casos): redução significativa de verbalizações espontâneas, lentificação da fala, alterações do tom de voz e prosódia, desorganização da fala e incoerência, vocalizações anormais (no sentido de fora da norma de um indivíduo em particular).
  • Mudanças em comportamentos, funções e habilidades (91% dos casos): surgimento ou agravamento de comportamentos obsessivo-compulsivos, declínio cognitivo, perda de habilidades motoras com aumento da dependência para realização de atividades.
  • Sintomas psiquiátricos (69% dos casos): apatia, choro, anedonia (perda da capacidade de sentir prazer nas atividades), desinteresse e desmotivação, irritabilidade, oscilação do humor, mania (aceleração de fala e pensamentos), ansiedade e sinais psicóticos.
  • Sintomas fisiológicos (78% dos casos): mudanças do apetite e da ingesta de líquidos, regurgitações e vômitos, perda de peso, alterações do sono, taquicardia, retenção ou incontinência urinária e fecal, sudorese, rubor, cianose de extremidades, dores difusas.
  • Excitabilidade (16% dos casos): aumento da sensibilidade a estímulos sensoriais (especialmente auditivos), confusão e desorientação.

No autismo, sinais de alerta importantes são: apatia, falta de motivação para atividades anteriormente prazerosas, lentificação de movimentos, dependência de comandos para a realização de atividades e comportamentos auto lesivos. Vale notar que, dada a heterogeneidade de características e habilidades observadas no TEA, é preciso situar as mudanças dentro de um contexto individual, ou seja, em relação ao comportamento de base de uma pessoa em particular.

Uma observação interessante é que a catatonia parece estar particularmente relacionada a autistas com comportamentos obsessivo-compulsivos, depressão e tiques (inclusive Tourette).

Todos os casos em que houver suspeita de catatonia devem ser encaminhados para avaliação e intervenção especializados. O tratamento pode reverter as alterações observadas e melhorar a evolução clínica e a qualidade de vida do paciente.


Vaquerizo-Serrano, J. et al (2022). Catatonia in autism spectrum disorders: A systematic review and meta-analysis. Eur Psychiatry
Hasan, S. et al (2025). Systematic Review of Symptoms of Catatonia in Autism Spectrum Disorder. J Autism Dev Disord
Rogers, J. P. et al (2023). Evidence-based consensus guidelines for the management of catatonia: Recommendations from the British Association for Psychopharmacology. J Psychopharmacol