Os sinais de autismo podem piorar na vida adulta?

No processo do diagnóstico tardio de adultos, não é incomum ouvir que muitas coisas foram piorando com o tempo: as intolerâncias sensoriais, as interações sociais, a disfunção executiva, a rigidez, as crises de sobrecarga.

Alguns autistas relatam que características que passaram despercebidas na infância e adolescência chegam a ser incapacitantes na vida adulta, levando-as a um estado de esgotamento que nunca tinham experimentado antes. Aí vem o questionamento inevitável: o autismo foi piorando ao longo da vida?

Não há exatamente uma piora, falando do ponto de vista neurológico (como no caso das regressões das podas neuronais, por exemplo). Mas, sim, é possível que o nível de sofrimento seja maior nessa fase de vida. São muitos os possíveis fatores por trás disso.

A percepção e as expectativas (do próprio indivíduo e das outras pessoas) a respeito dos comportamentos esperados vão mudando ao longo das fases da vida. As convenções sociais (observância a regras de convivência dos vários ambientes) são mais exigentes para os adultos. As demandas da vida familiar vão ficando mais complexas. Na vida adulta a pessoa deixa o lugar de ser cuidada para o lugar de cuidar, passa a ser responsável por coisas com que antes não precisava se preocupar (o próprio sustento, a organização da casa, a administração das contas, as compras, os afazeres domésticos). As interações sociais passam a depender de habilidades cada vez mais sofisticadas. É preciso ter uma “leitura” mais abrangente do ambiente, suportar situações desconfortáveis com mais frequência, manter maior nível de vigilância em determinados ambientes. A mediação social (o papel facilitador frequentemente exercido por familiares) já não é tão presente.

As vivências negativas do passado cobram seu preço (muitas vezes na forma de gatilhos), surgem comorbidades psiquiátricas. O acesso ao suporte adequado é mais difícil que na infância. A invalidação é uma constante.

Por tudo isso, nosso maior desafio hoje não é apenas “saber diagnosticar” o autismo na fase adulta. Precisamos capacitar profissionais e ambientes para oferecer suportes adequados e que venham realmente de encontro às necessidades de cada um.